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Nikolai Vasilievich Gogol em russo, Николай Васильевич Гоголь, nasceu em 20 de março de 1809 em uma pequena aldeia na região de Poltava, na Ucrânia . Apesar de muitos de seus trabalhos terem sido influenciados pela tradição ucraniana, Gogol escreveu em russo e sua obra é considerada herança da literatura russa. Toda a sua obra é fundada no realismo, mas um realismo muito próprio com rasgos do que viria a ser um surrealismo. Apesar da crítica fulminante, a obra é hoje apontada como absolutamente russa.

Com 20 anos (1829) vai para São Petersburgo, onde conhece Aleksandr Púchkin, o maior escritor de então, que lhe passa a devotar grande amizade e fervorosa empatia, inspirando-lhe novas ideias para obras que ainda não tinham vindo à luz do dia, nomeadamente Noites na Herdade de Dikanka, sua obra de estreia, tendo sido publicada em 1831, obtendo Gogol o seu primeiro êxito.

Mas desde cedo revela uma personalidade complexa.
Ao mesmo tempo amante fervoroso da verdade, Gogol é também um homem cheio de preocupações místicas, religiosas e patrióticas. A sua obra reflete o lado moralista das questões que concernem à condição humana, trágica e inapelavelmente priosioneira na sua jaula; mas a crítica efusiva censurava-o constantemente pelas suas tentativas de fazer vingar a alma à mercê do poder constituído e inabalável. Gógol não era político, não possuía um programa de ação contra um regime, que fazia da Rússia da época um país «metade caserna, metade prisão». Porém, a crítica ao autor sobrevivia.

Seu pai, antigo oficial cossaco, desenvolveu seu gosto pela literatura, e apesar do seu modo tipicamente temerário, nunca fora o amparo na infância de Gogol, ainda que o jovem nutrisse por ele o mais delicado afecto. Sua mãe transmitiu-lhe a fé religiosa, que veio a desencadear, à beira da sua morte, em um misticismo doentio. Os seus progenitores, seriam, portanto uma falaz influência em toda a obra do então jovem Gogol.

Depois de estudos medíocres, este jovem de fisionomia austera deixa a Ucrânia e encontra um modesto emprego de escritório ministerial em São Petersburgo. A distância de seu país natal e a nostalgia que dela resulta inspiraram alguns dos seus escritos. A panóplia de obras e romances do então funcionário desterrado avivaram a sua carreira como autor, e após haver conhecido pessoalmente o romântico Aleksandr Púchkin, a sua obra despoletaria em um realismo próprio - não diremos insuflado, mas pejado de uma fonte riquíssima em artifícios paradoxais, tal como Dostoiévski havia traçado em sua obra. Prova desse realismo tipicamente gogoliano seria a novela O Capote, cujo herói tornou-se o arquétipo - desterrado e visivelmente perturbado com as novas ideias modernas - do pequeno funcionário russo.

Gógol sente-se incompreendido, irritado tanto por aqueles que o apoiam quanto por aqueles que o criticam, pois todos simplificam e deturpam seu pensamento profundo, julgando que ele ataca as instituições de uma maneira militante– fato que contribuiu para a sua doença nervosa e um exacerbado sentido político (de tal forma que nos últimos anos da sua vida se torna um autocrata fervoroso, desencadeando reações até um pouco ignominiosas por parte da corte).

De facto, sua intenção não é outra senão a de denunciar os vícios e os abusos que se encontram no interior da alma humana. Em pleno desarranjo emocional, ele foge e recomeça a viajar pela Europa.
A morte de Púchkin no ano de 1837, em um desinteressante duelo, abala profundamente Gogol. «Agora tenho a obrigação de concluir a obra cuja ideia fora do meu amigo». Referia-se, naturalmente, ao alentado texto de Almas Mortas.

Tenta publicar a obra em Moscovo em 1841, mas o Comité Moscovita de Censura recusa. Não é senão após uma intervenção dos amigos do autor que o livro é publicado, em 1842. O romance é uma descrição em detalhe das preocupações do homem russo em uma Rússia profunda; uma sátira, às vezes impiedosa, que porém guarda subjacente o profundo e natural amor de Gogol pelo país.
De 1837 a 1843 vive em Roma. Regressou à Rússia, doente. Um misticismo religioso acentuado indu-lo a abandonar as antigas ideias liberais (como se aí residisse o que é de absolutamente condicionante) para se tornar um defensor da autocracia. Essa crise mística virá a exacerbar-se após a sua viagem à Palestina, em 1849.

As tribulações recomeçam: Itália, França, Alemanha etc. Em 1848, faz uma peregrinação em Jerusalém. A pouco e pouco, sua saúde se degrada, e ainda mais devido à sua irritável hipocondria que em nada o recompõe; seu sentimento religioso se exalta. Gógol se torna cada vez mais místico. É o seu maior transtorno mental, o fato de ir buscar pelo sentimento religioso a salvação da alma.
De volta a Moscou, redige a segunda parte de Almas Mortas. Mas seu estado físico e psíquico se degrada incessantemente, mercê desse vício que o acompanha desde jovem idade: apesar de homem absolutamente sadio e regrado, esse vício ou superstição por uma ordem nova das coisas o martiriza. No início de Fevereiro de 1852, num momento de delírio, segundo dizem, ele queima na lareira de seu quarto todos os manuscritos inéditos - inclusive o fim da segunda parte de Almas Mortas.

O romance é uma belíssima e irónica ficção sobre a corrupção de uma classe decadente que domina o povo ignorante e escravo da Rússia. Mas nunca fora concluída. Da plêiade russa que desafiou o czar - Liermontov e Gogol, resta apenas um jovem admirador de Pushkin, Ivan Turgeniev -que viria a escrever obras importantes como "Pais e Filhos" e ver o reconhecimento de seus amigos apenas na sua maturidade.

A 21 de Fevereiro de 1852 Nicolau Vasilievich Gógol morre.

São-lhe concedidas cerimónias e reconhecimento únicos: seu corpo embalsamado segue insepulto por mais de um dia carregado pelos estudantes, oferecendo homenagens à memória do grande escritor em diferentes locais. Todos os que leram Gogol queriam ver de perto a despedida do grande autor. Está enterrado no cemitério de Novodevitchi, em Moscovo.

Os últimos anos da sua vida e as posições então assumidas não invalidam a obra que fez de Gógol o maior escritor russo da primeira metade do século XIX, o verdadeiro introdutor do realismo na literatura russa, o precursor genial de todos os grandes escritores que se lhe seguiram. Como disse Turguenev: «Todos nós saímos de O Capote». Toda a literatura russa, que já muito devia a Púchkin, será em Gógol que colherá os maiores ensinamentos.

 

Fiódor Dostoiévski em russo Фёдор Миха́йлович Достое́вский ,( Moscou, 11 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 9 de Fevereiro de 1881) – ocasionalmente grafado como Dostoievsky – foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita."

A obra dostoievskiana explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio: seus escritos são chamados por isso de "romances de idéias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas idéias.
Dostoiévski, aos 17 anos, teve uma grande crise de epilepsia após saber que seu pai havia sido assassinado pelos próprios colonos,[6] e deixou o exército cinco anos depois para dedicar-se integralmente à atividade literária. Dostoiévski passou a afastar-se das armas, mas acabou envolvendo-se em conspirações revolucionárias, das quais passou pela prisão e pela condenação de morte, embora a pena tenha sido comutada. Alguns autores acreditam que essas dificuldades pessoais auxiliariam Fiódor a se estabelecer como um dos maiores romancistas do mundo, mas de fato seu reconhecimento definitivo como "escritor universal" veio somente depois dos anos 1860, com a publicação de seus grandes romances: O Idiota e Crime e Castigo, este publicado em 1866, considerado por muitos como uma das obras mais famosas da literatura mundial.

Seu último romance, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Sigmund Freud como o melhor romance já escrito. Segundo o biógrafo Nicholas Berdiaiev, a obra dostoievskiana vem atingindo grande popularidade no Brasil por causa de "[…][suas] características muito próximas do brasileiro", e salienta que "[a obra de Fiódor] é marcada pelo anticapitalismo, por uma reação ao capitalismo selvagem, algo que parece tocar o leitor brasileiro hoje."[10] A obra de Dostoiévski exerce uma grande influência no romance moderno, legando a ele um estilo caótico, desordenado e que apresenta uma realidade alucinada.

Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoyevski e Maria Fedorovna. Mikhail era um pai autoritário, então médico no Hospital de pobres Mariinski, em Moscou, e a mãe era vista pelos filhos como um paraíso de amor e de proteção do ambiente familiar.
Seu pai tornou-se um nobre em 1828.[5] Até 1833, Fiódor foi educado em casa, mas com a morte precoce da mãe por tuberculose em 1837, e a decorrente depressão e alcoolismo do pai, foi conduzido, com o irmão Fiódor Mikhail, à Escola Militar de Engenharia de São Petersburgo, onde começou a demonstrar interesse pela Literatura.

Em 1839, quando tinha dezoito anos, recebeu a notícia de que seu pai havia morrido. É aceito hoje, porém sem provas concretas, que o doutor Mikhail Dostoiévski, seu pai, foi assassinado pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói, indignados com os maus tratos sofridos. Tal fato exerceu enorme influência sobre o futuro do jovem Fiódor, que desejou impetuosamente a morte de seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, fato que motivou Freud a escrever o polêmico artigo Dostoiévski e o Parricídio.

Dostoiévski sofria de epilepsia e seu primeiro ataque ocorreu quando tinha nove anos. Suas experiências epiléticas serviram-lhe de base para a descrição de alguns de seus personagens, como o príncipe Myshkin no romance O idiota, e de Smerdyakov na obra Os Irmãos Karamazov.
Na Academia Militar de Engenharia, em São Petersburgo, Dostoiévski aprendeu matemática, um tema que desprezava. Também estudou a obra de Shakespeare, Pascal, Victor Hugo e E.T.A. Hoffmann. Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, Mary Stuart e Boris Godunov, influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller. Dostoiévski descrevia-se como um "sonhador" em sua juventude e, em seguida, um admirador de Schiller. Em 1843, terminou seus estudos de engenharia e adquiriu a patente de tenente militar, ingressando na Direcção-Geral dos Engenheiros, em São Petersburgo.

Em 1844, Honoré de Balzac o visitou em São Petersburgo, e Dostoiévski, como uma forma de admiração, fez sua primeira tradução, Eugenia Grandet, e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota. Esta tradução despertou sua vocação, levando-o pouco tempo depois a abandonar o exército para dedicar-se exclusivamente à literatura. Trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra, em São Petersburgo. Fez traduções de Balzac e George Sand.

Alugou, em 1844, uma casa em São Petersburgo e dedicou-se à escrita de corpo e alma. Nesse mesmo ano, deixou o exército e começou a escrever sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre, trabalho que iria fornecer-lhe êxitos da crítica literária, cuja leitura de Bielínski, o mais influente crítico da literatura russa, o fez acreditar ser Dostoiévski "a mais nova revelação do cenário literário do pais."

Em O Diário de um Escritor, recordou que após concluir Gente Pobre deu uma cópia para seu amigo Dmitry Grigorovich, que a entregou ao poeta Nikolai Alekseevich Nekrasov. Com a leitura do manuscrito em voz alta, ambos ficaram extasiados pela percepção psicológica da obra. Às quatro horas da manhã, foram até Dostoiévski para dizer que seu primeiro romance era uma obra-prima. Nekrasov mais tarde entregou a obra a Bielínski. "Um novo Gogol apareceu!", disse Nekrasov. "Com você, a primavera de Gogol nasce como cogumelos!". Bielínski respondeu a Dostoiévski.
Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina de sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado.

– Dostoiévski sobre as palavras de Bielínski, em, 'Diário de um Escritor'

O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoiévski uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade. Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e sofrer mais freqüentemente de epilepsia. Seus romances seguintes, Duas vezes (1846), Noites Brancas (1848), que retrata a mentalidade de um sonhador, Niétochka Nezvánova (1849) e a Inveja do Marido e Esposa de Outro, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, que fizeram com que Dostoiévski mergulhasse em depressão. Nesta época entrou em contato com alguns grupos de idéias utópicas, chamados niilistas, que procuravam a liberdade humana.

Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849 por participar de um grupo intelectual liberal chamado Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o Nicolau I da Rússia. Depois das revoluções de 1848, na Europa, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.[5]

Em 23 de abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo Petrashevski foram presos. Dostoiévski passou oito meses na prisão até que, em 22 de dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Dostoiévski teve de situar-se em frente ao pelotão de fuzilamento com uma venda e até mesmo ouvir os seus disparos. No último momento, as armas foram abaixadas e um mensageiro trouxe a informação de que czar havia decidido poupar a vida do escritor. Sua pena foi comutada para cinco anos de árduo trabalho em Omsk, na Sibéria.

O príncipe Myshkin, de O Idiota, oferece várias descrições sobre essa mesma experiência. Após a simulação da execução, Fiódor passou a apreciar o próprio processo da vida como um dom incomparável e, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista, o valor da liberdade, integridade e responsabilidade individual.

Durante este tempo os ataques epiléticos aumentaram ainda mais. Anos mais tarde, Dostoiévski descreveu seu sofrimento para seu ao irmão, dizendo-se um "silenciado em um caixão "[21] e que o local onde estava "deveria ter sido demolido anos atrás".

No verão, confinamento intolerável, no inverno, frio insuportável. Todos os pisos estavam podres. A sujeira no chão tinha uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair… Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer havia lugar para caminhar… Era impossível não se comportar como suínos, desde o amanhecer até o pôr-do-sol. Pulgas, piolhos, besouros a celemim.
– Dostoiévski sobre seu local de prisão

Foi libertado em 1854 e condenado a quatro anos de serviço no Sétimo Batalhão, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de soldado por tempo indefinido.[5] Apaixona-se por Maria Dimítrievna Issáievna, mulher de um conhecido. Com a morte do marido e já no próximo ano, em fevereiro de 1857, casam-se.[23] Na noite de núpcias Dostoiévski sofreu uma violenta crise de epilepsia.[24]

Depois de dez anos voltou à Rússia.[5] Na Sibéria chamou a experiência de uma "regeneração" das suas convicções, e rejeitou a atitude condescendente de intelectuais, que pretendiam impor seus ideais políticos sobre a sociedade, e chegou a acreditar na bondade fundamental da dignidade e do povo comum. Descreveu esta mudança no esboço que aparece em O Diário de um Escritor, O Mujique Marei: "Sou filho da descrença e da dúvida, até ao presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, mas nem sequer pode haver."[5]

Estudos médicos permitiram diagnosticar que Fiódor sofria de epilepsia temporal. Suas crises sistemáticas, que ele atribuía a "uma experiência com Deus", tiveram papel importante em sua crise religiosa e em sua conversão durante o desterro, quando a Bíblia era sua única leitura. Dostoiévski se tornou um forte crítico do niilismo e do movimento socialista, e dedicou em seu livro O Diário de um Escritor para expor idéias críticas ao conservadorismo socialista.[25][26] Formou uma amizade com o estadista conservador Konstantin Pobedonostsev e abraçou alguns dos princípios do Pochvennichestvo. Por este tempo começou a escrever Memórias da Casa dos Mortos, baseado em suas experiências como prisioneiro.

Em 1859, após meses de árduo esforço, conseguiu ser solto sob a condição de residir em qualquer lugar, exceto em São Petersburgo e Moscou, e assim, mudou-se para Tver. Ele conseguiu publicar O Sonho do Tio e Adeia Stepánchikovo. As obras não obtiveram as críticas esperadas por Dostoiévski. Em dezembro do mesmo ano, foi finalmente autorizado a regressar a São Petersburgo, onde fundou com seu irmão Mikhail a revista Vremya ("Tempo"), que no primeiro número publicou Humilhados e Ofendidos, também inspirada em seu trabalho na Sibéria. Sua obra Memórias da Casa dos Mortos foi um enorme sucesso quando então publicada em capítulos no jornal O Mundo Russo.
Entre 1862 e 1863, fez várias viagens pela Europa, incluindo Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante essas viagens teve um relacionamento amoroso fugaz com Paulina Súslova, uma estudante de idéias progressistas. Perdeu muito dinheiro jogando e retornou à Rússia no fim de outubro de 1863, sozinho e sem recursos. Durante este tempo o seu jornal tinha sido proibido, por publicar um artigo sobre a Revolução Polaca de 1863.[17]

Em 1864, conseguiu editar com seu irmão o jornal chamado Epoja ("Época"), onde publicou Memórias do Subsolo. Seu ânimo acabou após a morte de sua esposa, seguida pouco depois pela de seu irmão. Além disso, seu irmão Mikhail deixou uma viúva, quatro filhos e uma dívida de 25 mil rublos, tendo de sustentá-los. Profundamente depressivo e viciado em jogos, acumulou enormes dívidas. Para sanar seus problemas financeiros, fugiu para o estrangeiro, onde perdeu o restante do dinheiro que ganhara em cassinos.] Ali se reencontrou com Paulina Súslova e tentou reatar o relacionamento, mas foi rejeitado.

Em 1865 começou a elaborar Crime e Castigo, uma de suas obras capitais, que apareceu na revista O Mensageiro Russo, com grande sucesso. Quando seu editor determinou um curto prazo para que terminasse o livro, contratou Anna Grigórievna Snítkina, na época com vinte e quatro anos, a quem dedicou, em apenas vinte e seis dias, o livro O Jogador. O relacionamento com Anna finalmente terminou em casamento em 15 de fevereiro de 1867.

Juntos continuaram a viajar pela Europa e Genebra, onde nasceu e morreu pouco tempo depois sua primeira filha. Em 1868 escreveu O Idiota e, em 1871, terminou Os Endemoniados, publicado no ano seguinte. A partir de 1873 publicou em jornal Diário de um Escritor, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, obtendo grande sucesso. Esta publicação seria interrompida em 1878, para dar início à elaboração do seu último romance, Os Irmãos Karamazov, que foi publicado em grande parte no jornal russo O Mensageiro.

Em 1880 participou da inauguração do monumento a Aleksandr Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo. Em 8 de novembro desse ano, termina Os Irmãos Karamazov, em São Petersburgo. Morreu nesta cidade, em 9 de fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epiléptico. Foi enterrado no Cemitério Tijvin, dentro do monastério Alexander Nevsky em São Petersburgo. Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas. Em sua lápide pode-se ler os seguintes versos de São João, que também serviu como subtítulo de seu último romance, Os Irmãos Karamazov:

Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. — Evangelho segundo João, 12:24[

Dostoiévski necessitava de dinheiro e sempre fora apressado em concluir suas obras, por isso disse não conseguir realizar seu pleno poder literário. Mais tarde, por saber bem o que as seguintes palavras significavam, disse: "A pobreza e a miséria formam o artista." Embora a frase pareça abrangente e generalizada, Fiódor costumou desviar-se do estilo de escritores que descreviam o círculo da família moldados na tradição e nas "belas formas", e engendrou no caos familiar os que humilhavam e insultavam. Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.[5]

Seus romances ocorrem em um período curto (por vezes apenas alguns dias), o que permite ao autor fugir de uma das características dominantes da prosa realista: a degradação física que ocorre ao longo do tempo. Seus personagens encarnam valores espirituais que são, por definição, atemporais. Outros temas recorrentes em sua obra são suicídio, orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo. Estudiosos como Mikhail Bajtín têm caracterizado o trabalho de Dostoiévski como diferente de outros romancistas; ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos. Dostoiévski engenhou romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica.

O espaço e o tempo em Dostoiévski é analisado às vezes como "discreto, onde o inesperado não apenas é possível como também sempre se realiza". Através da minimização do tempo de passagem, onde os fatos aparecem de forma de repente, o instante ganha o tempo e logo depois relaxa, desaparecendo nas cenas. Certos autores comparam o tempo e o espaço em Dostoiévski como cenas cinematográficas: o uso constante da palavra russa vdrug (de repente), que aparece 560 vezes na edição russa de Crime e Castigo, tem a proposta de levar ao leitor a impressão de tensão, de desigualdade e de nervosismo, elementos característicos da estrutura do romance dostoievskiano. Além da palavra vdrug em Crime e Castigo, a literatura de Dostoiévski utiliza muito os números, às vezes usando-os com extrema precisão: a dois passos...., duas ruas a direita, como também usa números elevados e redondos (100, 1000, 10000). Acredita-se que esses elementos são "mitopoéticos": Crime e Castigo possui sete partes (6 partes e o epílogo), sendo que, na composição do romance, ele é dividido em 7 capítulos (cada parte), e a "hora fatídica" é indicada como depois das 7. Na literatura dostoievskiana, o processo de evolução da humanidade se dá exclusivamente pela repetição de dificuldades e ocasiões, e também pelo uso da memória e da lembrança, por mais infernal que tudo isso possa parecer ao personagem.

Fiódor publicou inúmeros contos: O Mujique Marëi, O Sonho de um Homem Ridículo, Bobock e outros, além de novelas: O Senhor Prokhartchin, A Dócil, O Homem Debaixo da Cama, Uma História Suja, O Pequeno Herói, Uma Criatura Gentil, Coração Fraco e Noites Brancas. Criou duas revistas literárias: Tempo (Vrêmia) e Época, colaborando ainda nos principais órgãos da imprensa russa.

Provavelmente Dostoiévski foi muito influenciado por tradições folclóricas. Algumas acreditavam que as águas de rios, mares e lagos representavam a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Geograficamente, além do rio Nieva, na Rússia, coexistem outros meios aquáticos, e por conta disso a cidade de São Petersburgo tornou-se fantástica e diabólica, o que influenciou a cultura popular e a literatura russa, juntamente com Fiódor.[35] Por conta da influência que arrecadou através dessa cultura – onde o Homem está entre a vida e a morte – as personagens da literatura de Fiódor estão constantemente expostas a ocasiões complexas, beirando os limites da razão e da lógica, e os limites do que o ser humano é capaz de realizar diante de problemas universais; contudo, em geral, as personagens de Fiódor podem ser classificados em diferentes categorias: cristãos humildes e modestos (Príncipe Mishkin, Sonia Marmeládova, Aliosha Karamazov), autodestrutivos e niilistas (Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev), cínicos e libertinos (Fiódor Karamazov, Prince Valkorskij), intelectuais rebeldes (Rodion Românovitch Raskólnikov, Ivan Karamazov), enquanto regidos por idéias e não imperações sociais ou biológicas.

Segundo o escritor Mário Pontes, as novas traduções em língua portuguesa – lançadas no Brasil – das obras de Dostoiévski, como O Idiota demonstram um estilo "menos castiço", argumentando que "[…]toda a obra [original] de Dostoiévski foi escrita em circunstâncias adversas: luto, doenças, dívidas, incontrolável atração pelo jogo, censura e vigilância policial, daí porque a pressa transparece nos seus romances, onde uma descrição pode ser interrompida de repente por um nervoso, etc." Segundo Mário Pontes, os romances de Dostoiévski apresentam incoerências, repetições e saltos derivados desses problemas pessoais do autor. Embora o crítico avalie as traduções mais antigas como trabalhos feitos em cima de edições francesas que possivelmente traziam erros, e que as novas edições brasileiras apresentam um estilo dostoievskiano "muito menos castiço do que os anteriores", ele diz que, todavia, "[estão] muito mais próximo[s] do original", e finaliza dizendo que "[…]todos esses acidentes e defeitos, que as novas traduções se empenham em preservar, não bastam para afetar o interesse que desperta no leitor a profundidade do mergulho de Dostoiévski na alma humana."

O russo Alexey Rémizov durante exílio em Paris, em 1927, escreveu: "A Rússia é Dostoiévski. Rússia não existe sem Dostoiévski. " A maioria dos críticos concorda que Dostoiévski, Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Victor Hugo e outros poucos escolhidos tiveram uma influência decisiva sobre a literatura do século XX, especialmente no existencialismo e expressionismo.

A influência de Dostoiévski é imensa, de Hermann Hesse a Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores. Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foram alheios ao seu trabalho (com algumas raras exceções, tais como Vladimir Nabokov, Henry James ou D.H. Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoiévski em uma de suas últimas entrevistas como uma das suas principais influências.

Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como "o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo a descoberta Stendhal." Certa vez disse, referindo a Notas do Subsolo: "chorei verdade a partir do sangue". Nietzsche refere-se constantemente a Dostoiévski em suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoiévski. "Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo", disse Mihajlo Mihajlov.

Com a publicação de Crime e Castigo em 1866, Fiódor se tornou um dos mais proeminentes autores da Rússia no século XIX, tido como um dos fundadores do movimento filosófico conhecido como existencialismo. Em particular, Memórias do Subsolo, publicado pela primeira vez em 1864, tem sido descrito como o trabalho fundador do existencialismo. Para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a idéia de que a razão orienta tudo.

 

Aleksandr Sergueievitch Pushkin em russo Алекса́ндр Серге́евич Пу́шкин (Moscou, 6 de Junho de 1799 — São Petersburgo, 10 de Fevereiro de 1837), foi um importante romancista e poeta russo. Publicou seu primeiro poema com quinze anos de idade e foi largamente reconhecido nos meios literários antes mesmo de sua graduação no Imperial Lyceum, localizado no Tsarskoe Selo, a vila real de então. Considerado o maior dos poetas russos e o fundador da literatura russa moderna, foi pioneiro no uso da língua coloquial em seus poemas e peças.

Entre suas obras mais conhecidas encontram-se O prisioneiro do Cáucaso, Evgueny Onieguin, A história da revolta de Pugatchiev e O Cavaleiro de Bronze. Escreveu poemas, novelas e peças teatrais. ., criando um estilo narrativo - mistura de drama, romance e sátira - como poeta, fazia uso de expressões e lendas populares, marcando os seus versos com a riqueza e diversidade do idioma russo.

Influenciou autores como Gogol, Liermontov e Turgeniev formando com os mesmos a famosa plêiade russa de autores. A Gogol, pela amizade e projeto mútuo de desenvolvimento de uma literatura autenticamente russa, Pushkin lega algumas idéias como a da peça teatral O inspetor geral. Gogol pediu uma comédia ao amigo, e Pushkin passou horas detalhando uma história como a "fábula fiscal" do Inspetor Geral. Quando Gogol pediu um drama denso, Pushkin detalhou a ele um golpe de alguns senhores feudais russos que visava a obter recursos do Governo, para "investimentos", apresentando documentos de escravos já falecidos como se ainda vivos fossem. Tal idéia foi desenvolvida na grande obra de Gogol Almas Mortas, infelizmente inacabada.

Pushkin descendia de nobres de ambos os lados, todavia, é seu avô paterno quem mais chama atenção, Abram Petrovitch Gannibal, de origem africana, que freqüentava a corte de Pedro, o Grande, tendo feito carreira militar e se casado com uma nobre. Todavia, devido às suas idéias progressistas, tendo sido amigos de alguns dezembristas, responsáveis por uma tentativa de golpe contra o czar Alexandre I, foi desterrado, vagando, entre 1820 e 1824, pelo sul do Império Russo. Sob severa vigilância dos censores estatais e impedido tanto de viajar quanto de publicar, ele escreve sua mais famosa peça, Boris Godunov, em que evidencia a influência de Shakespeare o qual só pode ser publicada anos depois. Escreveu o romance em verso, Eugene Onegin, um retrato panorâmico da vida russa e que, introduzindo elementos que o levou a designar o seu estilo como "romantismo realista", russo do século XIX, depois musicado por Tchaikovsky; foi publicada em folhetins entre 1825 e 1832. No decurso deste período, compôs diversos poemas de influência byroniana, dentre os quais se destacam O prisioneiro do Cáucaso, A fonte de Baktchisarai e Os ciganos. Em 1826, recebeu o perdão do Czar, regressando a Moscovo. Dois anos depois, escreveu Poltav, uma epopéia que narra a história de amor do cossaco Mazeppa. Cultivando, cada vez mais, a prosa, alcançou grande sucesso com obras como Contos de Belkin, A Dama de Espadas e A Filha do Capitão.Pushkin e sua esposa Natalya Goncharova, com quem se casou em 1831, tornar-se-iam regulares freqüentadores da corte. Em 1837, ao cair nos cada vez mais insistentes boatos de que sua esposa começara um escandaloso caso extra-conjugal, Pushkin desafiou o dito amante, Georges d'Anthès, para um duelo. Mortalmente ferido em conseqüência deste, Pushkin faleceria dois dias depois.

Por causa de seus ideais políticos liberais e sua influência sobre gerações de rebeldes russos, Pushkin foi retratado pelos bolcheviques como opositor da literatura e da cultura burguesas e um antecessor da literatura e da poesia soviéticas.

 

Liev Tolstói, em russo Лев Николаевич Толстой, (Yasnaya Polyana, 9 de setembro de 1828 — Astapovo, 20 de novembro de 1910) é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos.
Além de sua fama como escritor, Tolstoi ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e idéias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza.

Junto a Fiódor Dostoiévski, Gorki e Tchecov, Tolstói foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz, sobre as campanhas de Napoleão na Rússia, e Anna Karenina, onde denuncia o ambiente hipócrita da época e realiza um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da Literatura.

Com a morte prematura dos pais, foi educado por preceptores. Em 1851, na juventude, o sentimento de vazio existencial levou-o a alistar-se no exército da Rússia. Tal experiência colaboraria para que, mais tarde, se tornasse pacifista.

Durante esta época de sua juventude, Tolstoi bebia muito, perdia muito dinheiro no jogo e dedicava muitas noites para ter encontros com prostitutas. Mais tarde, o velho escritor repudiaria esta fase de sua vida.
No final da década de 1850, preocupado com a precariedade da educação no meio rural, Tolstoi criou em Iasnaia Poliana uma escola, para filhos de camponeses. O escritor mesmo escreveu grande parte do material didático e, ao contrário da pedagogia da época, deixava os alunos livres, sem excessivas regras e sem punições.

Em 1862, casou-se com Sônia Andreievna Bers, com quem teve 13 filhos. Durante 15 anos, dedicou-se intensamente à vida familiar. Porém, o casamento com Sônia seria repleto de distúrbios e brigas. Foi nessa época que Tolstoi produziu os romances que o celebrizaram - "Voina i mir" (Guerra e Paz - 1865/1869) e Anna Karenina. O primeiro, que consumiu sete anos de trabalho, é considerado uma das maiores obras da literatura mundial.

Embora extremamente bem-sucedido como escritor e famoso mundialmente, Tolstoi atormentava-se com questões sobre o sentido da vida e, após desistir de encontrar respostas na filosofia, na teologia e na ciência, deixou-se guiar pelo exemplo da vida simples dos camponeses, a qual ele considerou ideal. A partir daí, teve início o período que ele chamou de sua "conversão".
Seguindo ao pé da letra a sua interpretação dos ensinamentos cristãos, Tolstói encontrou o que procurava, cristalizando-se então os princípios que norteariam sua vida a partir daquele momento.
O cristianismo do escritor recusou a autoridade de qualquer governo organizado e de qualquer igreja. Criticou também o direito à propriedade privada e os tribunais e pregou o conceito de não-violência. Para difundir suas idéias Tolstoi dedicou-se, em panfletos, ensaios e peças teatrais, a criticar a sociedade e o intelectualismo estéril. Tais idéias postas tão explicitamente causaram confusão nos fãs do famoso escritor e influenciariam um importante fã: Gandhi, nesta época ainda na África do Sul.

Após sua "conversão", Tolstói deixou de beber e fumar, tornou-se vegetariano e passou a vestir-se como camponês. Jaime de Magalhães Lima que visitou e correspondeu-se com Tolstoi escreveu: “Leão Tolstoi foi um adepto e um apóstolo do vegetarismo. E não é pouco nem insignificante que um tal espírito e tão sublimado coração perfilhasse e praticasse essa doutrina, que a inércia moral e o poder do vício desprezam ou escarnecem na cegueira própria da sua particular estreiteza.”[1] Convencido de que ninguém deve depender do trabalho alheio passou a limpar seus aposentos, lavrar o campo e produzir as próprias roupas e botas. Suas idéias atraíram um séquito de seguidores, que se denominavam "tolstoianos". Decidiu abrir mão de receber os direitos autorais dos livros que viria a escrever, só voltou a querer utilizar este dinheiro quando precisou angariar fundos para transportar para o Canadá uma comunidade de camponeses perseguidos pelo governo.
Tolstoi chegou a ser vigiado pela polícia do czar. Devido a suas idéias e textos, foi excomungado pela Igreja Ortodoxa russa, em 1901. Alguns de seus amigos e seguidores foram também exilados. Tolstoi somente não foi preso porque era adorado em todo o mundo como um dos maiores nomes da arte de seu tempo.

Tolstoi, porém, não conseguia alcançar a simplicidade em que acreditava. Sua família, especialmente a mulher Sônia, cobrava-lhe os luxos e riquezas aos quais estavam acostumados. Os filhos davam razão a mãe, a quem Tolstói amava e que ameaçava se matar quando o escritor fazia menção de abandonar a casa.

Sônia, que havia lhe dedicado a vida, cobrava que o escritor deixasse para ela, em testamento, os direitos autorais das obras que fez na fase final de sua vida. Tolstoi, por sua vez, elaborou um testamento secreto, no qual passaria todos os direitos autorais a um tolstoiano de nome Chertkov, que tornaria sua obra pública.

Aos 82 anos de idade, Tolstoi decide, enfim, fugir de casa e abandonar a família para largar aquela vida na qual ele não mais acreditava.

Durante alguns dias a fuga foi um sucesso. Nos trens e nas estações por que passava, Tolstoi era reconhecido por todos, já que era o homem mais famoso da Rússia. Porém, devido a sua preferência em viajar em vagões de terceira classe, onde havia frio e fumaça, o já debilitado escritor contraiu uma pneumonia, que foi agravando rapidamente. No dia 20 de novembro de 1910, o velho escritor morreu durante a fuga, de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, província de Riazan.
O trem funerário que trazia seu corpo foi recebido por camponeses e operários que viviam próximos à propriedade dos Tolstoi. Seu caixão foi carregado seguido por uma multidão de 3 a 4 mil pessoas. O número teria sido ainda maior se o governo de São Petesburgo não tivesse proibido a vinda de trens especiais de Moscou para o enterro do escritor. Sua morte foi noticiada nos principais jornais do mundo.

Para Tolstoi, os Estados, as igrejas, os tribunais e os dogmas eram apenas ferramentas de dominação de uns poucos homens sobre outros, porém repudiava a classificação de seus ideais como sendo anarquistas. Foi citado pelo escritor anarquista russo Piotr Kropotkin no artigo Anarquismo da Enciclopédia Britânica de 1911 e alguns pensadores o consideram como um dos nomes do Anarquismo cristão. Outra aproximação com o anarquismo se deu em 1862, quando Tolstói, em viagem pela Europa, visitou o autor anarquista Proudhon. Este estava a escrever um texto chamado "La guerre et la paix", cujo título Tolstói propositalmente utilizou em seu maior romance.

O escritor não se auto-encaixava no anarquismo e não acreditava em guerras e revoluções violentas como solução para quaisquer problemas, mas sim em revoluções morais individuais que levariam às verdadeiras mudanças. Afirmava que suas teses se baseavam na vida simples e próxima à natureza dos camponeses e no evangelho e não nas teorias sociais de seu tempo.

Apesar de afirmar ter-se convertido no último período de sua vida e de renegar seus trabalhos mais famosos, encontram-se nestes mesmos textos diversas referências sobre a busca do autor por uma vida simples e próxima à natureza. Segundo o escritor George Woodcock em "A História das idéias e movimentos anarquistas", em todos os romances que Tolstoi escreveu quando mais novo, ele "considera a vida tanto mais verdadeira quanto mais próxima da natureza".
Vários foram os personagens criados nesta época que representavam o ideal de vida simples e natural. Em "Os Cossacos" são os camponeses meio selvagens de uma área remota do Cáucaso; Em Guerra e Paz é o personagem Platão que é descrito no livro como a personificação da verdade e da simplicidade: "Suas palavras e ações brotam dele com a mesma espontaneidade que o aroma brota da flor". Em Anna Karenina outro camponês, também chamado Platão, é o símbolo desta aspiração de Tolstói.

Ainda antes, na infância, Tolstói alimentava, junto aos irmãos, um sonho de fraternidade total. Eles acreditavam que o círculo fraterno que formavam poderia ser expandido e englobar a humanidade inteira, eliminando todos os problemas. O local onde esta utopia foi idealizada, sob a sombra de uma árvore em um bosque da Rússia, é o local onde foi enterrado Tolstói, conforme ele pedira, e também mais um seu irmão.

Tolstoi ficou famoso por ser um pacifista. Nas palavras de Mahatma Gandhi, com quem Tolstói trocou correspondência, o escritor foi o maior "apóstolo da não-violência". No livro "O Reino de Deus está em vós", Tolstoi baseia-se no Sermão da Montanha para afirmar que não se deve resistir ao mal utilizando-se do próprio mal.

No mesmo livro, continuando seu raciocínio pacifista, o escritor afirma ser contrário ao serviço militar obrigatório (e ao militarismo como um todo). Ele também defende e exalta povos como os Quakers, que buscam a simplicidade, a autonomia e não utilizam de violência.

Foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, religião dominante no seu país, depois de tanto critica-la. O escritor entendia como dogmas irracionais, que serviam para dominar o povo, alguns dos conceitos mais caros à Igreja. Considerava e seguia a doutrina de Jesus, mas achava impossível, por exemplo, que Jesus pudesse ser um homem e Deus, ao mesmo tempo. Para Tolstoi, Deus estava nas próprias pessoas e em suas ações e Jesus teria sido, para ele, o homem que melhor soube exprimir uma conduta moral que gerasse justiça, felicidade e elevasse espiritualmente a todos os homens.

Seu cristianismo exacerbado, no fim de sua vida, assemelhava-se ao cristianismo primitivo. Em alguns trabalhos publicados, seus textos foram muito mais longe que suas atitudes pessoais, como em "Sonata a Kreutzer", que mostra uma tendência a exaltar o celibato, porém o escritor ainda teve filhos depois desta obra. Pouco antes de sua morte, seus amigos o aconselharam a se retratar com a Igreja, este porém, recusando-se.

Citações:

«Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.»

«Os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.»

«Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra.»

«Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.»

«Em vão, centenas de milhares de homens, amontoados num pequeno espaço,
se esforçavam por desfigurar a terra em que viviam. Em vão, a cobriam de pedras
para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumaça; em vão escorraçavam os animais e os pássaros - Em vão… Porque até na cidade, a Primavera é Primavera.»

«O homem pode viver 100 anos na cidade sem perceber que já está morto há muito tempo»

«A felicidade é estar com a Natureza, ver a Natureza conversar com ela.»

 

Algumas obras:

  • Infância (1852)
  • Adolescência (1854)
  • Juventude (1856)
  • Crônicas de Sebastopol (1855-1856)
  • A felicidade conjugal (1858)
  • Cossacos (1863) - descreve a vida deste povo.
  • Guerra e Paz (1865-1869) - é uma monumental obra, na qual Tolstói descreve dezenas de diferentes personagens durante a invasão napoleônica de 1812, na qual os russos incendiaram Moscou ou Moscovo.
  • Anna Karenina (1875-1877) - conta as histórias paralelas de uma mulher presa nas convenções sociais e um proprietário de terras filósofo (reflexo do próprio Tolstói), que tenta melhorar a vida dos seus servos.
  • Confissão (1882)
  • O reino de Deus está em vós (1894)
  • A morte de Ivan Ilitch (1886)
  • A sonata a Kreutzer (1889)
  • O que é arte? (1898)
  • Ressurreição (1899)
  • Babine - o parvo - peça de teatro infantil
  • Obras Pedagógicas
  • Não posso me calar
  • Contos populares
  • O Diabo e Outras Histórias - volume de contos
  • Contos da Nova Cartilha - 2005
  • Kholstomér, a História de um Cavalo[1]



Anton Pavlovitch Tchékhov, em russo Анто́н Па́влович Че́хов, (Taganrog, 29 de Janeiro de 1860 — Badenweiler, 14 de Julho ou 15 de Julho de 1904) foi um importante escritor e dramaturgo russo, considerado um dos mestres do conto moderno. Era também médico, exercendo a Medicina durante o dia e frequentemente escrevendo à noite. Seus livros mais conhecidos são: Contos e narrativas, Um duelo, A Estepe, A Minha Vida, A sala número seis, Uma história sem importância. Escreveu para o teatro, primeiramente a farsa, depois o drama. Entre as suas peças, destacam-se: A Gaivota, Tio Vânia, As três irmãs, O canto do cisne, Um trágico à força, Ivanov, etc. Um de seus contos mais conhecidos é A dama do cachorrinho, de 1899.

Era filho de Pavel Egorovic Tchekhov e de Evgenija Jakovlevna. Teve quatro irmãos, Aleksandr (1855), Nikolaj (1858), mais velhos, Ivan (1861), Michail (1865) e uma irmã, Marija (1863). Uma segunda irmã nascida em 1869, Evgenija morreu com dois anos de idade.

As origens da família são humildes. O avô de Tchekhov , Egor Tchekhov , foi um servo que comprou a sua liberdade do Kreopostnoje Pravo. Pavel tinha então dezesseis anos.

Pavel Tchekhov fez um estágio de três anos num comerciante. Tornou-se depois servente e contabilista. Em 1857 tornou-se dono de uma mercearia. Comprou por um bom preço mas num momento inoportuno. A Guerra da Criméia tinha sido perdida e como consequência tinha sido imposta a desmilitarização do Mar Negro, pelo que os marinheiros e militares que tinham sido os principais clientes até então, tinham deixado estas paragens.

A mercearia do pai tinha um pequeno bar, tolerado pelas autoridades.

Numa carta de 1889 ao seu irmão Aleksandr, Anton Tchekhov resume a sua infância na seguinte frase, plena de ironia: "Filho de um servo, ... servente de loja, cantor na igreja, estudante do liceu e da Universidade, educado para a reverência de superiores e para beijos de mão, para se curvar perante os pensamentos alheios, para a gratidão por qualquer pequeno pedaço de pão, muitas vezes sovado, indo à escola sem galochas".

O pai, marcado pelo estigma de um ex-servo, educou os filhos de forma autocrática, habituando-os a obedecer. Deu-lhes no entanto o acesso à educação. Possibilitou aos filhos a frequência de um dos melhores liceus da cidade. Tiveram aulas de música e francês.

Anton foi acólito. No entanto, pouco lhe ficou da inspiração religiosa (que a propósito era muito marcante no pai, dirigente do coro da Igreja). Como Anton disse a este respeito: "o coração está como que varrido".

Na escola, Cechov não foi um bom aluno. Chegou a reprovar. Um padre que lhe deu aulas de religião chamava-o com menosprezo de "Cech" onte (cech significa servo). A mensagem: tu não passas de filho de servo. Mais tarde, quando publicava os primeiros contos em jornais, Tchekhov usou o pseudónimo "Antosa Cechonte" com ironia.

A partir dos seus treze anos, ficou fascinado pelo teatro da cidade, que dado o pouco dinheiro que tinha não frequentava tantas vezes como queria. Como era proibida a entrada a crianças não acompanhadas de adultos e sem a autorização do liceu, chegou a "disfarçar-se" de adulto, usando uma barba postiça.

Em 1874, Pavel, o pai de Anton, decide comprar uma casa maior. Ao mesmo tempo alugou uma segunda loja. O seu desejo de ascensão social suplantou a sua prudência econômica. Suas dívidas cresceram e em breve ficou incapaz de as pagar. Em Abril de 1877 esteve quase a ser preso. Pavel fugiu ilegalmente para Moscovo, onde os filhos Aleksandr e Nikolaj estudavam. A esposa ficou para vender a casa e pagar as dívidas. Depois juntou-se ao marido em Moscovo. Anton (17 anos de idade) e Michail (16) ficaram em Taganrog, para acabar o liceu. Michail foi depois para Moscovo, enquanto que Anton ficou em Taganrog, onde deu aulas particulares para ganhar dinheiro (o que ele relatou depois num conto). Passou dois anos e meio, sozinho em Taganrog. A mãe escreveu-lhe de Moscovo: "vende a cómoda e as coisas, depressa, não nos deixes morrer de angústia!". Suas leituras nesta fase da sua vida eram Shakespeare, Cervantes, Victor Hugo, Ivan Turgeniev, Goncarov, Harriet Beecher Stowe, Friedrich Spielhagen e Leon Tolstoi. Em 1876, tinha sido inaugurada a primeira biblioteca pública em Taganrog. As notas de Anton no liceu melhoraram nos anos em que viveu sozinho. A 27 de Junho de 1879 concluiu o liceu.

Em Agosto de 1879, beneficiando de um subsídio de 25 rublos mensais da cidade de Taganrog, Anton Cechov vai para Moscovo, onde reencontra a família. A família encontra-se numa situação financeira precária. O pai está desempregado há meses, a família tem sempre dificuldades em pagar a a renda da casa e foi forçada a mudar de casa 12 vezes entre 1876 e 1879. Meses depois da chegada de Anton, o pai encontra um emprego nos arredores de Moscovo e para a sua felicidade é-lhe dada a oportunidade de dormir no local de trabalho, o que alivia a casa onde a família vive, absolutamente a abarrotar. O pai vem apenas aos fins de semana visitar a família. Anton partilha durante os seus estudos, o seu quarto de dormir com os irmãos Nicolai e Michail.

Em 1880, Tchekov envia um drama, escrito nos últimos tempos em Taganrog, com o título "os sem-pai", também conhecido como o "Platonov" (nome da figura central) a uma famosa actriz de teatro em Moscovo, Marija Ermolova, que o devolveu sem comentários. Depois disso, Tchekov desistiu de tentar trazer uma encenação do drama para o palco.

Anton Tchekov estudou Medicina, tendo-se licenciado em Maio de 1884. Já mesmo durante os seus estudos (que duraram 4 anos e meio) publicou centenas de artigos em vários jornais e revistas das metrópoles russas (Moscovo e São Petersburgo). Ele dependia desta fonte de receitas para sustentar a si e a sua família. Entre os jornais e revistas onde publicou encontram-se o Budilnik, Strekoza, Zritel, Svet i teni, Svertcok ou o Sputnik. A partir de 1882 publicou também no Oskolski.
Em Março de 1888 surge publicado na revista Severnyi vestnik o seu romance A estepe.

Em 1889, os sintomas da tuberculose agravaram-se, fazendo-o mais pessimista sobre o seu estado de saúde. Em junho desse ano morre o seu irmão Nikolaj, vítima de tifo e tuberculose, possivelmente infectado pelo irmão. Anton Cechov sentiu remorsos por não ter estado presente nos últimos dias de vida do irmão. Em Junho, o irmão Aleksandr chegou e rendeu-o na vigília ao irmão, tendo Anton decidido fazer uma viagem com os amigos até Poltava. Fugiu da mesma morte que o esperava, assim o descreveu.

Após o enterro do irmão, ("a nossa família viu um caixão pela primeira vez") decidiu iniciar uma viagem sem rumo. Vive em viagem permanente nos meses seguintes. Em janeiro de 1890 escreve à família que tenciona viajar até à distante Sacalina, a ilha do desterro, no longínquo leste da Rússia. A família fica estupefacta.

Após meses de preparação, Cechov partiu em 21 de Abril de 1890 para a longa viagem. Suvorin deu-lhe um "avanço" de 1500 rublos para a viagem. A 11 de Julho de 1890 chega finalmente a Fort Aleksandrovsk, na Ilha Sacalina. Passou dois meses no norte da ilha e três meses no sul da mesma. Quis conhecer as gentes da ilha, fez quase mesmo um levantamento das visitas que fazia, escrevendo notas em cerca de 10.000 cartões individuais, um trabalho exaustivo. A ilha Sacalina era usada como zona de desterro, tal como muitos territórios na Sibéria. A partir de 1860, o número de "criminosos" (incluindo por "delitos" políticos) enviados para a Sibéria era de cerca de 20.000 por ano. Entre os desterrados inclui-se o amigo de Tchecov, Vladimir Korolenko, um escritor, que foi enviado para a Sibéria pela polícia, sem qualquer julgamento. A 13 de Outubro parte para Vladivostok. Um mês depois, chega à ilha de Ceilão. A 1 de Novembro chega a Odessa. A 8 de Dezembro está de regresso a Moscovo. Traz dois mangustos na bagagem.

Em 1891, escreve O duelo, que é publicado no "Novo tempo" de Suvorin, por capítulos. Neste livro, fluíram as impressões que Tchechov teve das conversas que teve com um zoólogo nas férias de Verão desse ano em Bogimovo, perto de Aleksin. Vladimir Vagner, recém-licenciado em zoologia, e um defensor do social-Darwinismo, do direito dos mais fortes, da seleção social.

O Verão de 1891 foi particularmente seco no leste da Rússia, contribuindo para uma onda de fome. Tchecov mobilizou-se pessoalmente para combater a catástrofe, contribuindo directamente com os honorários do conto "A minha mulher", participando nas campanhas de recolha de fundos. Em Janeiro de 1892, viajou até Niznij Novgorov, uma cidade afectada. Relatou as suas vivências na imprensa, contribuindo para o debate sobre a catástrofe e a necessidade de reunir fundos para as vítimas.

Em 1892, Tchekhov decidiu instalar-se com parte da família numa quinta em Melichovo, 60 kms a sul de Moscovo. A ideia já era um sonho desde a década de 1880, mas em 1892 Tchekhov dispunha do dinheiro necessário, que resultava em parte das primeiras encenações. O acesso à quinta a partir de Moscovo era razoável: uma hora e meia de viagem em combóio até Lopasnja e uma hora de carroça a partir dali.

A compra da quinta foi um mau negócio, gastou 13 000 rublos, mais do dobro do que pretendia gastar inicialmente. O anterior dono, um pintor, aproveitou-se da ocasião. Tchecov passa a ter agora uma casa, 60 cerejeiras e 80 macieiras e pode saborear aquilo que desejava: a vida no campo. Tornou-se um elemento bem-vindo na comunidade dos lavradores das redondezas, em especial por ser médico e praticar a profissão sem exigir pagamento.

Entre as muitas visitas na nova casa conta-se Lidija Mizinova com quem Tchecov teve uma relação afectiva mais ou menos íntima e mais ou menos passageira. Foi uma figura inspiradora de personagens de suas obras.

No Verão de 1892 grassa agora uma epidemia de cólera na Rússia. Como no passado, Tchecov mobiliza-se na angariação de fundos ("mostrei-me um bom mendigo"), participa na construção de barracas para a quarentena, trabalhou na administração local. Felizmente, porém, Melichovo não foi afectada pela cólera.

Em 1893 volta a surgir a cólera. Tchecov volta a mobilizar-se, participando em campanhas de informação sanitária e trabalhando como médico. Foi membro da zemstvo local.

Em 1894 faz uma viagem pela Europa ocidental.

A partir de 1895 Tchecov comprou livros para oferecer à biblioteca de sua terra natal, Taganrog. Uma prática que ele manterá nos próximos anos. Mesmo em viagem pela Europa lembrou-se de comprar livros para a bibliioteca da sua terra.

O seu envolvimento na comunidade local mantém-se muito activo nos anos seguintes. Em 1894 torna-se membro da zemstvo de Serpuchov. Em Dezembro desse ano torna-se curador de uma escola em Talez. Em 1896 financia pelos seus próprios meios a construção de uma nova escola em Talez. Em 1897 é a vez de financiar a construção da escola numa aldeia chamada Novoselki. Apoia também uma sociedade de beneficência que trata de pacientes que receberam alta dos hospitais. Ainda em 1897 torna-se também curador da escola da aldeia de Cirkovskoje.

Em 1896 surge o romance "A minha vida", e em 1897 "Os camponeses". São obras que testemunham a ruptura com as visões utópicas e românticas tão comuns nestes anos na Rússia: o ideal da vida no campo faz alguns intelectuais russos, os Narodniks, premonitores da revolução soviética, sonhar com uma saída para todos os problemas: o regresso ao passado, o regresso à agricultura. Tchecov, que vive ele próprio no campo e assiste à vida rural in loco, tem acesso a uma perspectiva que a elite intelectual das cidades não adivinha: alcoolismo, ignorância, brutalidade, maldade. Para Tchechov os homens do campo não são nenhum modelo, ao contrário do que um Leon Tolstoi possa pensar.

Esta visão, contrária aos ideiais da maioria da "intelectualidade" russa, espelhada naquelas obras, irá tornar Tchecov impopular. Michajlovski acusa Tchecov de falsificar a (gloriosa) vida dos camponeses devido à sua ignorância.

Após a produção com êxito de "A Gaivota" pelo teatro de Arte de Moscou, escreveu três outras peças para a mesma companhia: "O Tio Vânia", "As três irmãs", e "O Jardim dos Cerejais" (traduzido em Portugal como "O Ginjal").

Em 1901, casou com Olga Leonardovna Knipper (1870-1959), uma actriz que foi intérprete nas suas peças.

A influência do naturalismo no teatro que se fazia sentir por toda a Europa atingiu o seu expoente artístico na Rússia em 1898 com a formação do Teatro de Arte de Moscou (mais tarde chamado de Teatro da Academia das Artes de Moscou). O seu nome tornou-se um sinónimo de Tchekhov, cujas peças acerca da vida cotidiana da aristocracia possuidora de terras adquiriram um delicado realismo poético que estava anos à frente do seu tempo. Constantin Stanislavski, o director do teatro, tornou-se porventura o mais importante teórico da arte de representar do século XX.
Chekhov visitou a Europa Ocidental na companhia de A.S. Suvorin, um rico proprietário de um jornal e o editor de muitos dos trabalhos de Chekhov. A sua longa e íntima amizade foi motivo de alguma impopularidade para Chekhov, uma vez que o jornal de Suvorin, Novoye vremya (O novo tempo) era tido por muitos dos russos como de carácter conservador e reaccionário. Chekhov acabou por cortar relações com Suvorin por causa da posição do jornal em relação ao Caso Alfred Dreyfus em França, tendo Chekhov sido um defensor de Dreyfus.

Chekhov morreu vítima da tuberculose. Foi sepultado no cemitério Novodevichy.

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